A história de amor do filme Cromossomo 21

Entrevista com o diretor Alex Duarte, que conta sobre o processo de criação e suas motivações

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Foto: Divulgação

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Como trazer uma personagem com Síndrome de Down a um filme sem fazer com que ele caia na mesmice de longas sobre inclusão? Lançado no Festival de Gramado desse ano, “Cromossomo 21” conta a história de amor entre Vitória e Afonso sem precisar tocar em assuntos que há muito vemos sobre a síndrome. Conversamos com Alex Duarte, o diretor por trás da obra, que conta um pouco sobre o processo de criação e suas motivações para fazê-la. Morando há um ano no Recreio, o diretor revela, inclusive, o futuro do projeto.

Qual é o seu envolvimento com a Síndrome de Down? Como surgiu a ideia?

Há seis anos, quando eu estagiava em um jornal ainda em Rio Grande do Sul, antes de me formar em Publicidade, eu recebi como tarefa cobrir a aprovação no vestibular de uma jovem com Síndrome de Down que tinha sido aprovada em Nutrição. Era o meu primeiro contato com uma pessoa com Síndrome de Down, eu nunca tinha tido contato. Eu cheguei lá com perguntas bem limitadas porque eu achei que ela não entenderia e também cheio de preconceitos, porque o preconceito nada mais é do que aquilo que você não conhece, que o seu cérebro ainda não viu. Quando eu cheguei lá, na verdade, eu fui totalmente quebrado, virado do avesso, porque a Adriele começou a me questionar e a primeira pergunta que ela me fez foi: “o que você faria se fosse impedido de amar?” – que é a pergunta do meu filme. Eu fiquei desconcertado, não sabia nem o que responder, e ela continuou os questionamentos, ela que começou a fazer a entrevista comigo. Aquilo me tocou muito, eu vi que existia ali uma menina gritando sua independência, com uma inteligência incrível, o que quebrou meu preconceito sobre a deficiência. A partir dali, eu e Adriele ficamos amigos e durante oito meses eu comecei a conviver com ela, e essa convivência era manhã, tarde e noite. Eu tinha saído de uma experiência bacana de ter feito um documentário que foi premiado em Gramado sobre a missão de paz no Haiti, e dali eu tive a consciência de que queria trabalhar com o lado social no cinema. Estava procurando um tema para fazer o meu primeiro longa e encontrei o tema ali com a Adriele, eu sabia que seria a história dela. Foi então que eu escrevi o “Cromossomo 21”, foram oito meses de laboratório, e fiz dela também atriz do meu filme porque vi que ela tinha talento para a coisa. Treinamos durante oito meses, tivemos um laboratório muito intenso, e foram os meses mais incríveis da minha vida.

A preparação do filme demandou um estudo diferenciado? Digo no sentido de falar verdadeiramente na linguagem que o público entenda, mas que passe o sentimento das pessoas que vivem com a Síndrome de Down.

O filme, na verdade, é uma obra muito verdadeira, porque ele foi construído todo em cima do que é a vivência da Adriele, o universo dela, como ela pensava sobre o amor, sobre a sociedade, e sobre as interferências que ela recebia, sobre o preconceito. Enfim, uma obra muito sensível e muito fiel ao universo da Síndrome de Down. Porém, ele não é um filme sobre a Síndrome de Down, ele é um romance como “A Culpa é das Estrelas” e “Como eu era antes de você”, é um romance no qual você vai se apaixonar pela história do Afonso e da Vitória. É um romance muito pop, na verdade, as pessoas vão se apaixonar pelo casal e não vão lembrar nem que ela tem Síndrome de Down.

Apesar de falar sobre inclusão, a história do filme é ficcional e, ainda por cima, um romance. Como trabalhar esse tema sem soar artificial?

Na verdade, não se trata de um filme sobre Síndrome de Down, em nenhum momento a gente faz apologia à inclusão, “vamos lá lutar pela inclusão”, nada. As pessoas vão entrar no cinema e assistir a um filme de romance, vão torcer para que Afonso e Vitória possam ficar juntos, e o principal: vão ver a vida acontecendo – eles com as suas confusões, se realmente amam um ao outro, como lutar com as diferenças… Enfim, é um filme muito sensível, mas ao mesmo tempo muito real porque ele foi escrito em cima da história da Adriele.

Qual deve ser o futuro do filme? Podemos esperar vê-lo em cartaz nas salas de cinema do país?

Agora o filme se transformou em um projeto, já passamos por 18 estados com palestras inclusivas e oficinas, e na semana que vem voltamos de Los Angeles e já vamos para São Paulo: vamos lançar o livro na Saraiva, dar uma palestra em Campinas e essa rota vai durar o ano todo e o próximo ano também. Para o filme, existe uma projeção que ele vai entrar em cartaz nos cinemas do país até março do ano que vem porque agora depende da distribuidora. Estamos aguardando uma para distribuir o filme nos cinemas. Ficou curioso? Enquanto o filme não chega nos cinemas da região, matamos a curiosidade com o trailer: www.youtube.com/watch?v=p18bt3L9G0o.

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Rita de Cássia Costa
Sou uma estudante de jornalismo estereotipada: curiosa por natureza, leitora frenética e apaixonada pelo contato humano. Tenho um interesse todo peculiar por economia, política, moda, cinema e tudo o que me transmite um novo frescor.
Rita de Cássia Costa

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06-10-2016 |

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