Filho, um objeto de desejo da mãe: “Mãe DEVORADORA.”

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“A mãe devoradora é capaz de ler pensamentos” | Foto: VisualHunt

Vivemos um momento de muitas dúvidas em relação a como lidar com nossos filhos? Como tratá-los? Como atender suas necessidades? Qual é o meu papel diante desse ser? É meu? Pertence-me?

Ao receber essas crianças em nosso consultório, por apresentarem comportamento inadequado, ou dificuldade de aprendizagem, entende-se que necessitam de cuidados. Levando a tratamento, podemos destacar que não existem evoluções consideráveis na vida dessas crianças, ou são tardias por conta de uma mãe que a todo tempo se coloca na posição de super protetora e acaba fazendo as atividades que deveriam ser de construção da própria criança, não permitindo seu desenvolvimento cognitivo, social e afetivo, podemos chamar de “mães devoradoras”, que, de forma inconsciente ou consciente, impedem o processo de evolução desse sujeito, quando desejam devorá-los, tendo o desejo de realizar tarefas que a eles competem. Numa necessidade louca de proteger, impossibilita esse filho de avançar enquanto ser humano, nas suas potencialidades.

Essa criança possui suas competências e habilidades, independente de suas limitações, e em caso de apresentar algum transtorno, seja qual for, não será marcador para impedir de desenvolver com qualidade desse individuo.

Revelando o self de algumas famílias, conclui-se que a “mãe devoradora” é hoje uma posição perigosa e desastrosa na vida do filho, podendo adoecer essa criança, passando pela fase da adolescência até a vida adulta, apresentando uma psicopatia sem tê-la.

Nossa definição enquanto humano descreve que não nos garantimos sozinhos, dependemos do outro como nosso cuidador, durante muito tempo de nossas vidas, nossas dificuldades de sobrevivência dependem do amparo do outro, o que nos faz entender que o sujeito se constrói através do outro.

A mãe devoradora é capaz de ler pensamentos; presenteia o filho sem motivo, oferece água antes da criança sentir sede (como ela irá saber o que é ter sede?). Impede o individuo de ter a ideia de valores; de limite, a capacidade de criar, fantasiar, elaborar pensamentos complexos, e a curiosidade tão necessária ao processo da aprendizagem, inclusive a leitura e a escrita (a lexescritura).

O processo de desenvolvimento e a personalidade desses indivíduos podem ser afetadas de forma expressiva, significativa e irreversível, se no futuro essa mãe não entender que existem adversidades na vida.

A definição de Lacan expõe claramente que, em um primeiro momento da estruturação do sujeito, a mãe aparece primordialmente como toda-poderosa, devoradora, e que não se pode eliminá-la desta dialética fundamental para se entender o que quer que seja.

É pela palavra da mãe que um pai passa a fazer parte da estrutura psíquica de um filho. Desse pai, esperamos que possa se apropriar de seu lugar e, junto com a mãe, oferecer o mundo, o diferente, o aprendizado, a escola, enfim, realizar as podas necessárias para que a criança cresça longe de se tornar um apêndice da mãe.

A função paterna é aquela que interdita a simbiose, que propicia o aconchego sem fusão, que protege, mas não oprime, que diz alternadamente sim e não, que pode dar limites, bordas, contorno a um EU. A função paterna diferencia e destaca o Um do Outro. A função paterna em operação na mulher barra a mãe do desejo de devorar o objeto fálico, seu filho, permitindo com sua presença/ausência a criação do enigma e do desejo na criança. Dessa maneira, ela pode reconhecer o filho não como o falo, mas como um representante fálico e, assim, desviar seu olhar para outros objetos. A função paterna permite a entrada do 3° elemento, o pai, e, desta forma, a Lei paterna tem vigor para a mãe e pode ser instaurada no filho, possibilitando uma etapa além da construção do psiquismo do pequenino para o advir de um Sujeito.

A Lei é normatizadora, logo, dá limites. Para que servem os limites? Servem para nos tirar da indiferenciação, para dar contorno, para nos marcar enquanto humanos diferentes dos outros animais, para nos inserir num grupo social e, portanto, tendo que frear as pulsões mortíferas. O limite direciona a vida à cultura, à criação. É preciso temer as pulsões mortíferas: a agressividade limitada é empreendedora; a agressividade sem limite é violência.

O “não” é preciso! Sim e não são essenciais! Mãe e pai são fundamentais. Fundam sujeito. Desde Freud, com o mito edípico, o pai tem lugar de destaque nas estruturas clínicas. O quadrilátero pai-mãe-criança-falo é a mola propulsora de todo o processo psíquico.

É fundamental e importante sabermos das implicações que a ausência da lei paterna pode causar na mente de uma criança para que possamos, a tempo, intervir. Sem pai enquanto representante da lei, sem limite, o sujeito fica à deriva, à mercê da pulsão de morte. Logo, o pai é estruturante!

BIBLIOGRAFIA

FREUD, SIGMUND. “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980. V.

________________ “Totem y Tabu”. In: Obras Completas de Sigmund Freud. Madrid: Biblioteca Nueva, 1981. Cuarta Edicion. Tomo II.

LACAN, JÀCQUES. “O Seminário: livro 4: a relação de objeto”. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1995.
________________ “O Seminário: livro 5: as formações do inconsciente”. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999.

JULIEN, PHILIPPE. “Abandonarás teu pai e tua mãe”. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.

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Rosangela Paris

Rosangela Paris

Rosangela Paris/ Pedagoga. Especialização em Psicopedagogia Institucional e Clínica/ Neuropedagoga  - abpp - 1178. Especialização em Neurociência Aplicada a Aprendizagem pela UFRJ – Mediadora do TJRJ. Para atendimento clínico, contato: (21) 96925-2069.
12-04-2016 |

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