O segredo das cervejas alemãs

A Alemanha é o país com maior número de cervejarias do mundo

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“A cerveja é a prova viva de que Deus nos ama e nos quer ver felizes.”

Benjamin Franklin

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Foto: Flick

 

Chegamos ao país com o maior número de cervejarias do mundo: a Alemanha! Por séculos, a cerveja tem um papel fundamental no país. Desde os rituais místicos nos quais era bebida em homenagem aos deuses antigos, e o céu era interpretado por um caldeirão, presidido por Thor, o mestre cervejeiro do Palácio de Valhala. Quando trovejava, as pessoas daquela época acreditavam que Thor estava limpando o caldeirão de fazer cerveja. Um pouco desse misticismo permanece até os dias de hoje quando se trata de beber cerveja.

Com seus mais de 15 estilos de cervejas, produzidos por mais de 1300 cervejarias espalhadas pelo país, a Alemanha é destino obrigatório para os apreciadores da bebida. A produção e o consumo de cerveja tiveram grande impulso devido à influência dos mosteiros. Os mosteiros mais antigos a iniciarem a produção de cerveja foram os alemães Weihenstephan e St. Emmeran, e St. Gallen, na Suíça. O local mais sagrado do mundo da cerveja fica em Freising, próximo a Munique. Construído no topo de um morro, o mosteiro beneditino Weihenstephan foi, em 1040 d.C., o primeiro a receber oficialmente autorização para produzir e vender cerveja. Com isso, é a cervejaria mais antiga do mundo ainda em funcionamento e abriga a Faculdade de Cervejaria da Universidade Técnica de Munique, a mais famosa desse tipo.

Os “biergärten”, ou Jardins de Cerveja comuns em toda Alemanha, são grandes áreas verdes

com bancos onde se pode apreciar cervejas servidas em canecas de até um litro. O criador desses jardins, Maximilian I, o rei da Baviera, autorizou em 1812 que os produtores comercializassem suas cervejas diretamente aos consumidores em áreas ao ar livre.

A Pilsner é o estilo mais popular da Alemanha e representa cerca de dois terços da produção total. A pilsen alemã é produzida somente com cevada, sem adição de outros grãos. Cada lugar da Alemanha tem sua peculiaridade e cada um produz seu estilo de cerveja. A preferida de muitos brasileiros, inclusive eu, as de trigo produzidas na Baviera, ficaram muito tempo proibidas, graças a tão conhecida Lei de Pureza, cujo nome verdadeiro é “Reinheitsgebot”.

Criada em 1516 por Guilherme IV, é o mais antigo código de alimento do mundo. Dizem que foi após uma ressaca “daquelas” que Gulherme IV, então Duque da Baviera, criou a Reinheitsgebot. Alguns cervejeiros da Baviera incluíam em suas receitas alguns ingredientes bem estranhos, como cal e fuligem, o que Guilherme IV acreditava ser o motivo de sua ressaca. A Lei por ele criada dizia: “Em especial, desejamos que daqui em diante, em todas as nossas cidades, nas feiras e no campo, nenhuma cerveja contenha outra coisa além de cevada, lúpulo e água.” O fermento ainda não era conhecido e só foi incluído mais tarde.

Mas, a ressaca de Guilherme não passa de lenda, a verdade é que, tanto lá como cá, o que fala mais altos são sempre os interesses econômicos. A cerveja estava enriquecendo a Igreja e a tornando cada vez mais poderosa. Com a Reinheitsgebot, o “Gruit” (mistura de ervas) usado antes do lúpulo, para dar aroma à cerveja, produzido e comercializado nas congregações católicas, ficava proibido. Outro motivo para a criação da Lei de Pureza foi o trigo. Já naquela época as “Weinzenbier” (cervejas de trigo) importadas da Repúlica Tcheca (onde acredita-se terem sido criadas, assim como as Pilsner) eram muito apreciadas, embora bem mais caras. O trigo começou a ser disputado tanto pelos padeiros como pelos cervejeiros. A falta de ambos deixaria a população enfurecida! A Lei de Pureza resolveu esse problema.

A Reinheitsgebot foi praticamente extinta, sendo incorporada em 1952 pela Biersteuergesetz (Lei Fiscal sobre a Cerveja), um emaranhado de normas e cheia de restrições. Que, claro, foi parar nos tribunais da União Europeia. A Alemanha perdeu de lavada, mas marcou um gol: “que a cerveja que contivesse aditivos não poderia conter em seu rótulo que era fabricada segundo a Reinheitsgebot”. Hoje, segue a Lei quem quer, muitos a usam mais para atestar a excelência de um determinado produto.

Como vimos no começo, são muitos os estilos de cervejas produzidos aqui, vamos citar alguns dos mais conhecidos. A Alemanha é a terra das cervejas Lager, as cervejas de baixa fermentação. Lager em alemão significa guardar/armazenar. As principais Lagers produzidas aqui são: Schwarzbier, é a mais escura da Alemanha, com aroma e paladar que lembram chocolate meio amargo; Munich Helles é a cerveja mais consumida no país – o malte é mais evidente, além de terem um toque de biscoito.

Embora mais encorpadas, mantém a refrescância; as Bock são Lagers fortes ou extrafortes (doppelbocks), como bock significa “bode”, o animal tornou-se um símbolo do estilo. Acredita-se que o nome tenha relação com o signo de Capricórnio, já que historicamente sua produção é feita no mês de outubro. São maltadas, encorpadas e de elevado teor alcoólico. As Dunkel são identificadas como cervejas Lager, estilo Munique ou tipo Baviera, têm uma cor que vai do cobre ao castanho-escuro, sabor e aroma meio doces, próximos ao chocolate. Já as Viennas têm seu nome em razão da variedade do malte usado na sua produção, “vienna”, mais caramelizado. São muito equilibradas, graças à boa dose de amargor do lúpulo. E, claro, as Pilsner.

As do estilo Ale (alta fermentação) mais conhecidas no Brasil são: a Weizen ou Wiessbier, a cerveja de trigo tradicional da Baviera. São amarelas turvas, espuma muito densa e persistente. Com aromas que lembram banana e cravo. Kölsh é a cerveja original da cidade de Colônia, tem aparência similar a Pilsner, é bem clara, porém levemente amarga. Por fim, a Altbier, da cidade de Düsseldorf, com tonalidade que vai do bronze profundo ao cobre escuro. Sabor maltado seco e caráter mais amargo de lúpulo.

Para viajar sem precisar ir muito longe, seguem algumas sugestões: Falke Bier Ouro Preto, Eisenbahn Dunkel, Paulaner e Eisenbahn 5.

Eis que é já é dezembro! Passou tão rápido, que bom já que esse ano não foi fácil para nós brasileiros e para o mundo. Lama, corrupção, crise política e moral, atentados… Enfim, não foi fácil. Porém, um ano novo é transformador, são 365 dias para mudar. Ok, mudar o mundo é muito difícil, mas, se cada um de nós, eu e você, mudarmos um pouco daquilo que reconhecemos como nossos defeitos, já é uma grande mudança para o mundo. Que possamos ser gratos, porque, apesar de tudo isso, estamos aqui. Somos parte da transformação que precisamos e desejamos. Mãos à obra! Grandes mudanças começam dentro de nós. Obrigada, Utilitá por mais um ano de confiança, e obrigada a todos vocês que leem, curtem e compartilham a nossa coluna. Isso não tem preço!

Feliz Natal! E que 2016 seja um ano de muita paz, amor, compreensão, prosperidade e saúde! Tim tim!

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Giane Farias

Giane Farias

Sommelière formada pela Associação Brasileira de Sommeliers, especialista em vinhos franceses com certificado do Conseil Interproffesionel du Vin de Bordeaux. Trabalha há mais de 10 anos na área. Ministra cursos há alguns anos e coloca todo seu conhecimento em prática no Recreio. Recentemente, fez curso de cozinheira para poder unir as duas paixões.
10-12-2015 |

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