A singularidade da infância – traumas e resultados

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Traumas - matéria

Traumas na infância podem provocar problemas graves no futuro | Foto: Divulgação

 

Quando somos pequenos, recebemos os mais variados tipos de sentimento dos nossos pais e das pessoas que nos cercam; muitas vezes somos amados e em outros momentos sofremos de carência afetiva, sofremos dores, rejeição, descontentamento e medo.  Não importa o tempo, ele não nos livra do sofrimento.

A infância de hoje não difere da infância de ontem. Vamos acumulando feridas, mágoas que são cravadas em nossos corações e guardadas em nossa mente.  Esses maus tratos, muitas vezes, o tempo apaga, e talvez só nos recordemos quando virmos alguém passar ou quando nos tornarmos pais e notarmos em nossos filhos. São sentimentos da nossa realidade e que se instalam dentro de nós.

Com o tempo, a criança vai perdendo alguns entes queridos, passando por momentos de luto, e as dores dessas perdas às vezes não são observadas pelos adultos. O mesmo ocorre nos seus outros momentos de luto: luto de não ser mais o bebê, luto da infância, luto da adolescência, luto de não ser o personagem principal. Aprendemos a acumular sentimentos dos mais variados, ao ponto de amadurecermos e vestirmos armaduras de desconfiança, de não acreditar no outro e de não ser mais bonzinho, abrindo mão da inocência e da capacidade de construir relações duradoras e nos impedindo de estabelecer vínculos de sincero carinho e segurança pessoal.

Em busca de um futuro pleno de felicidade, não tendo o passado da infância como uma penitência, temos a resiliência como virtude que dispomos para projetar nosso futuro da melhor forma possível.

Hoje, as crianças vivem um presente que as desestabilizam, com vários tipos de traumas e dificuldades. Como poderão enfrentar o futuro? Como irão deixar de lado as cicatrizes da infância que somente eles conhecem?

Os efeitos dos traumas de infância são vistos a todo momento, em todo lugar. Isso acontece com qualquer criança, podendo torná-la depressiva. A criança depressiva se envolve, com frequência, em situações que oferecem perigo à sua integridade física. Muitas vezes, tem consciência do perigo, no entanto, conflitos inconscientes predominam e levam-na a repetir determinados comportamentos de risco, numa tentativa de mobilizar a atenção das pessoas para que percebam o seu sofrimento.

Muitas pessoas não sabem ou não lembram que sofreram em sua infância – existem pessoas que nem conseguem lembrar de sua infância, apenas fatos pequenos e longínquos, e outros negam, negam para que possam reconstruí-la de maneira diferente. Isso significa que desejam de alguma forma esconder suas experiências dolorosas no inconsciente. Enquanto não estamos emocionalmente preparados, essas lembranças não surgem em nosso consciente.

Quando ficamos mais velhos, ficamos mais fortes, vamos nos curando e começamos a relembrar e lidar – embora às vezes com bastante sofrimento – com informações importantes a respeito de nossas vidas.

Esses traumas vividos na infância podem tornar um adulto altamente depressivo. Durante o período escolar, muitas vezes, as crianças são vítimas de preconceitos, tanto pelos colegas quanto em casa, pelos familiares, podendo deixar uma marca indelével que os acompanhará por toda a vida. Frequentemente, os pais a consideram uma criança preguiçosa ou nervosa e raramente os sintomas são percebidos como geradores de sofrimento.

Por conta dos traumas vividos, muitas crianças já mostram indícios de depressão, quando apresentam comunicação deficiente, fisionomia triste, heteroagressividade na forma de comportamento agressivo e destrutivo. A discordância quanto a essa questão reside em uma serie de fatores; entre eles, encontra-se a divergência quanto à proporção com que cada fator concorre para a configuração da depressão na vida adulta. Ao longo desta revisão, num viés de memória, devido ao qual o adulto deprimido ou que sofre de traumas pode apresentar uma tendência a distorcer suas lembranças, no sentido de piorá-las, foca com mais intensidade os aspectos negativos, acarretando um aumento de casos de falsos positivos nos achados.

O mundo no pilar social impõe regras que nos fazem ter medo, imposições de culpa quando não cumpridas, como: “Respeite os mais velhos! Não devemos fazer perguntas! Chorar é coisa de menina! Você precisa ser obediente! Você não sabe nada, os mais velhos sabem tudo! Engole o choro! Não cometa erros, isso não é permitido!” Vergonha, medo, sentimento de culpa e não acreditar em si mesmo. Isso é doloroso, mas crescemos evitando essa dor e tentamos nos livrar dela, dizendo que tivemos uma infância sem dor ou trauma, num processo de dissociação.

Precisamos nos analisar interiormente e nos conhecer significativamente para que possamos desenvolver uma empatia com nós mesmos, com o outro. Se você estiver desconectado consigo mesmo, não poderá acabar com o ciclo da violência numa vida plena e próspera, e a empatia é um dos fatores mais importante para isso.

Negar o trauma infantil, ou não perceber a depressão infantil, pode estar ligado ao medo de falar do que se sente. É a maneira de dissociar do próprio aparelho emocional e cognitivo. Essa é uma etapa dolorosa de se explorar ainda, que requer de nós muita coragem, capacidade mental, força, determinação e paciência. Ainda nos encontramos em processo. Um dia, ao acordarmos, tudo poderá ser diferente.

 

Revisão: Maíra Ferreira

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Rosangela Paris

Rosangela Paris

Rosangela Paris possui especialização em Psicopedagogia Institucional e Clínica, Neuropedagoga  - abpp - 1178, Profissional do Neurofeedback Cientista, Neuropsicóloga e Mestre em educação. Também possui Especialização em Neurociência Aplicada a Aprendizagem pela UFRJ – Mediadora do TJRJ. Para atendimento clínico, contato: (21) 99842-4652.
25-05-2015 |

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